30 de setembro de 2012

semana 40
Hameeda num conflito de terra e de água


Hameeda é uma jovem sudanesa que vive refugiada no Leste do Chade.
A sua aldeia, como muitas outras no Darfur, foi atacada repetidamente, em 2006, por homens armados, identificados com as tribos de nómadas. No passado, os choques entre as populações nómadas e os agricultores ocorriam esporadicamente, quando as manadas de uns danificavam as culturas dos outros. Mecanismos ancestrais permitiam às partes chegar a acordos de compensação.
A guerra civil no Darfur, em que a desertificação e a pressão sobre os recursos naturais, a terra e a água, também foram factores de conflito, veio radicalizar a relação entre as comunidades. Os nómadas, em virtude da sua aliança táctica com o regime em Cartum, sentiram-se com um novo alento para atacar os agricultores. Face à violência, muitos agricultores acabaram por procurar protecção nos campos de deslocados, no interior do próprio Sudão. Outros, fugiram para o Chade. Tornaram-se refugiados.
Assim aconteceu com Hameeda e a sua família. Desde criança, fora habituada a tratar dos campos e dos animais domésticos, a ir à lenha e à água. Assim aprendeu a ser mulher e a cuidar da sua vida. Hoje, é mais uma refugiada, vítima de guerra civil, assistida pela comunidade internacional. Não perdeu, todavia, nem a dignidade nem a esperança de regressar à sua terra.

Victor Ângelo
história e foto inéditas, 2010

23 de setembro de 2012

semana 39
O bairro do chão de lama


Costa de Caparica, bairro de barracas conhecido como Lelo. Daqui não se vê o mar, as praias ou as esplanadas que fazem o postal ilustrado desta região do município de Almada. Este sítio é mais como uma aldeia remota de um país subdesenvolvido. Não há esgotos, não há alcatrão nem calçada, a luz eléctrica é conseguida através de cabos ligados pelos moradores aos postes de electricidade. A água é trazida de quase um quilómetro de distância, transportada em baldes e alguidares à cabeça de mulheres e crianças.
“Vive-se tão perto da civilização e longe da humanidade”.
Durval Carvalho transformou a sua barraca numa venda e é assim que ganha a vida. “Todos os dias chegam novas pessoas por causa do reagrupamento familiar. O bairro não está a crescer. Não há mais casas. São só as crianças que chegam de Cabo Verde”.
A paisagem deste local é dominada de um lado pela arrábida fóssil da Costa, uma parede de terra amarela. Do outro lado estão os prédios da Caparica, alinhados uns ao lado dos outros. Um grupo de mulheres lava a roupa em selhas partilhadas à vez. A água espumosa de detergente é a mesma para todas. Uma lança ao ar uma descrição do bairro - “nem é preciso perguntar. Essa água foi trazida em cima da cabeça. Gostava de sair daqui imediatamente. Já sofri muito sem luz, sem água. Sem condições”.
De novo a palavra a Durval Carvalho – “vamos buscar a água à praça. Depois de muitos pedidos à câmara e aos serviços, fizeram um chafariz um bocadinho mais perto do bairro. Disseram que era para minimizar o nosso esforço mas penso que era para minimizar a vergonha deles, para que não continuássemos a ir com os nossos alguidares e baldes para o meio dos turistas”. Noutra casa do Lelo está o Adilson, pai de três filhos. Está desempregado.
“Tenho dois quartos, uma sala, a cozinha e casa de banho. No Inverno é que é pior. Se não tivermos um plástico para pôr em cima do telhado a água entra toda dentro de casa”.
Mais à frente, Euclides Fernandes está à porta da sua barraca. Tem ao colo uma das suas duas crianças – “temos crianças e estou preocupado que cresçam aqui, sem condições. A solução passaria por uma comissão do bairro negociar com a câmara e fazer-se aqui uma urbanização. E a mão-de-obra seria nossa, cada um fazia a sua parte do trabalho”.
Durval de Carvalho tem dois filhos, um com três anos e outro de oito meses. É membro da recente comissão de moradores do Lelo, criada para exigir o que consideram o mínimo para viver.

João Rosário
a partir da reportagem para a Antena 1, em Outubro de 2009

Alexandre Conceição
fotografia inédita, 2010

16 de setembro de 2012

semana 38
Pablo Fajardo, herói de uma causa


Como muitos habitantes de Lago Agrio nascidos na extrema pobreza, o advogado Pablo Fajardo Mendoza era um desconhecido até ao dia em que aceitou o desafio lançado por um grupo de 30 mil pessoas para os representar num processo contra a gigante petrolífera Chevron. Apesar da pouca experiência, aceitou.
Desde então, o seu caminho assemelha-se ao imaginado na vida de um qualquer herói. Impossível não pensar na heroína do livro de John Le Carré, Tessa Quayle, transformada em mártir no Quénia quando defendeu os interesses de um grupo de pessoas transformadas em cobaias, sem o saberem, por um gigante do sector farmacêutico que aí decidiu testar um medicamento antes de o lançar no mercado.
Enquanto “cidadão comum que se destacou por extraordinários feitos no mundo”, segundo a CNN, a estação norte-americana distinguiu-o “Herói da CNN” em 2007. Fajardo, galardoado com vários outros prémios ligados à defesa do ambiente, tem 37 anos, cresceu a trabalhar nos campos e, só mais tarde, com persistência e mérito completou os estudos secundários e o curso de Direito.
Lago Agrio, pequena cidade colada à parte equatoriana da floresta da Amazónia, repousa sobre um solo rico em petróleo. Aí, a Texaco entretanto comprada pela Chevron perfurou centenas de poços em 23 anos de actividades em que lixo, detritos e alguns tóxicos foram despejados, bem como água misturada com crude. O resultado é um manto de poluição que terá contaminado os habitantes. Os ambientalistas falam num dos locais mais contaminados do planeta ao ponto de já ter sido apelidado de “Tchernobil da Amazónia”.
Um cenário próximo do descrito, em ficção, no livro de Joyce Carol Oates, “The Fall” (“Niagara”), em que o advogado Dirk Burnaby se envolve, até à morte, numa batalha legal contra as companhias químicas da zona do Love Canal. Como Burnaby face aos poderes locais corruptos instalados, Fajardo enfrenta, neste seu primeiro julgamento, os colossos dos escritórios de advogados da Chevron, a terceira maior companhia de petróleo dos Estados Unidos. Mas isso não o intimida.
“Tomei consciência de que não sou menos do que os advogados da Chevron. Na verdade, tenho uma vantagem sobre eles: conheço os problemas como eles realmente são, porque vivo aqui. E percebi que se assumisse a defesa do caso apenas teria de pensar como dizer a verdade”.

Ana Dias Cordeiro
a partir do artigo publicado no jornal Público, 27 de Maio de 2009

Jorge Silva
ilustração inédita, 2010

9 de setembro de 2012

semana 37
Mulheres que tecem futuro



Al Kawtar significa coragem, generosidade. Para 33 mulheres marroquinas significa lugar-de-realização-dos-seus-direitos.
No centro de Marraquexe, num antigo riad de inspiração francesa, existe um refúgio para mulheres – jovens e menos jovens – com algum tipo de deficiência, onde podem aprender a ler, escrever e bordar. “É um sítio construído pela vontade das mulheres. Um lugar onde podem ganhar a vida e viver de forma independente, com dignidade e confiança em si mesmas”, resume a presidente da Associação Al Kawtar, Zahra Bouhaya.
A ideia surgiu de uma experiência anterior de trabalho com homens com deficiência. Não resultou. “Pode não ter funcionado devido à mentalidade das pessoas que exigiam tudo sem esforço por causa da deficiência”, explica a matrona da casa, mas acrescenta: “Ou o erro pode ter sido meu por não saber lidar com eles, por falta de experiência”.
Em 2006, Zahra Bouhaya e a presidente da Fundação Karl Kahane, Patricia Kahane, decidiram tentar de novo, desta vez com mulheres. E resultou. Agora, todos os dias, a Al Kawtar é uma oficina onde as mulheres se reúnem e bordam em “tricot” e “crochet” para responder às encomendas vindas de todo o país e exterior, pagas “justamente” por horas de trabalho. Mas é muito mais: é uma casa onde desfiam os seus problemas, alinhavam cuidados de saúde e alimentação e aprendem a ler e a escrever. “Hoje, estão mais seguras de si mesmas, sentem que participam na economia e exercem uma profissão que lhes dá satisfação e reconhecimento”, diz Zahra Bouhaya. É, no fundo, um lugar onde estas mulheres tecem futuro.

Ana Filipa Oliveira

história inédita, 2010



Patrick Arnoux

do documentário “Vision D’Al Kawtar”, 2010

2 de setembro de 2012

semana 36
Tirar tempo do tempo

Rodrigo aprendeu há seis anos a tirar sons musicais de um tubo de plástico. Não é mais que uma secção normalmente utilizada em canalizações. O fôlego de Rodrigo transforma-o num didgeridu, o instrumento sagrado dos aborígenes australianos.
O som grave e sincopado do tubo de plástico enche a sala onde Rodrigo e Liliane praticam o didgeridu. Ele ensina, ela aprende.
Liliane é belga. Está a tirar partido de ter levado para a Cooperativa Cultural Mó de Vida, em Almada, o Banco de Tempo. “Há quem tenha muito dinheiro e quem não tenha, ou tenha pouco. Mas todos temos o mesmo tempo. O tempo é o mesmo para todos”. É a contrariar uma ideia feita que justifica a validade do Banco. Liliane aprende “didgeridu” com tempo do Rodrigo. Em troca é procurada para explicações de francês.
Como não tem carro nem sabe conduzir, Rodrigo costuma usar o tempo de outros clientes do Banco que se disponibilizem a transportá-lo quando tem necessidade. Rodrigo paga o combustível.
A ideia do Banco de Tempo teve origem em Itália e rapidamente alastrou, até aos Estados Unidos da América. Chegou a Portugal no início dos anos 90 onde conta com cerca de 30 balcões e reúne cerca 200 membros. “É um movimento social que pretende criar uma rede comunitária de entreajuda em que as pessoas disponibilizam saberes, serviços, conhecimentos”, explica Irene Freitas Silva, impulsionadora do Banco de Tempo do Lumiar, em Lisboa.
Como num banco comum, cada cliente abre uma conta, faz um depósito e levanta um livro de cheques. Ao entregar o seu tempo, oferece também as suas competências, ou pelo menos aquelas que pode e quer partilhar.
Carla Vitorino é praticante de “reiki”. “É complicado para quem tem experiência como voluntário entrar no espírito do Banco. O voluntário dá de si, sem esperar receber nada em troca. No Banco de Tempo não é assim. Tive dificuldade em perceber que também podia beneficiar dos préstimos dos outros”. A Carla usa o tempo dos outros quando precisa de ajuda para transportar um sofá ou outra actividade que requeira uso extra de força.
Há quem procure apenas companhia para passear, ou conversar. Este é um banco que distribui dividendos de igual modo a todos os que aqui investem. Dá os lucros de se partilhar o tempo, com o objectivo de facilitar quem o procura. Tem o tempo na maior cotação, afinal, um valor sem preço.

João Rosário
a partir da reportagem para a RTP, em Janeiro de 2010

Ana Grave
ilustração inédita, 2010