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30 de setembro de 2012

semana 40
Hameeda num conflito de terra e de água


Hameeda é uma jovem sudanesa que vive refugiada no Leste do Chade.
A sua aldeia, como muitas outras no Darfur, foi atacada repetidamente, em 2006, por homens armados, identificados com as tribos de nómadas. No passado, os choques entre as populações nómadas e os agricultores ocorriam esporadicamente, quando as manadas de uns danificavam as culturas dos outros. Mecanismos ancestrais permitiam às partes chegar a acordos de compensação.
A guerra civil no Darfur, em que a desertificação e a pressão sobre os recursos naturais, a terra e a água, também foram factores de conflito, veio radicalizar a relação entre as comunidades. Os nómadas, em virtude da sua aliança táctica com o regime em Cartum, sentiram-se com um novo alento para atacar os agricultores. Face à violência, muitos agricultores acabaram por procurar protecção nos campos de deslocados, no interior do próprio Sudão. Outros, fugiram para o Chade. Tornaram-se refugiados.
Assim aconteceu com Hameeda e a sua família. Desde criança, fora habituada a tratar dos campos e dos animais domésticos, a ir à lenha e à água. Assim aprendeu a ser mulher e a cuidar da sua vida. Hoje, é mais uma refugiada, vítima de guerra civil, assistida pela comunidade internacional. Não perdeu, todavia, nem a dignidade nem a esperança de regressar à sua terra.

Victor Ângelo
história e foto inéditas, 2010

29 de julho de 2012

semana 31
Turbo


Tinha 15 anos. Conhecido como Turbo, a rua era a sua casa. Sobrevivia de pequenos biscates, como lavar carros e fazer recados aos moradores no quarteirão à volta do Hotel Mundial, no Largo Serpa Pinto, em Luanda.
Numa tarde de Janeiro de 1998, à saída do Hotel Mundial dou conta de burburinho na rua: o Turbo, algemado com as mãos atrás das costas, a chorar e rodeado de polícias procura defender-se da acusação de ter roubado um par de sapatos e o comando de uma parabólica. Aos gritos de “não fui eu, não fui eu”, os polícias respondem com agressões, pontapés e estaladas. Entretanto, uma carrinha da polícia de caixa aberta chega ao local e antes que consigam fazer subir o Turbo, este ensaia uma fuga.
Obviamente votada ao fracasso poucos metros depois. Um dos polícias alçou da espingarda a tiracolo e atingiu Turbo, por detrás, na face interior da perna esquerda.
Rapidamente levado para o Hospital Militar, onde é identificado, recebe os primeiros cuidados médicos e é recambiado para a esquadra na baixa de Luanda, junto à Sé.
Participado o caso à UNICEF, por ser menor, Turbo ainda chega a ser referenciado naquela esquadra, mas semanas depois, quando se intensificam as acções para o libertar a resposta vem seca e curta: “não temos aqui o registo de ninguém parecido”.

Eduardo Lobão
história inédita, 1998-2010

Maria Kowalski
ilustração inédita, 2010