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17 de junho de 2012

semana 25
Mehrnoushe, um anjo no inferno de Evin








 


















“Chamo-me Mehrnoushe Solouki. Sou documentarista e tenho dupla nacionalidade, iraniana e francesa. Em casa, tratam-me por ‘Nazi’. Não, não é engano. Em persa, ‘Nazi’ significa ‘graça’, e é assim que alguns pais chamam os filhos em sinal de afecto. Digo isto para entenderem que não é por ser ‘Nazi’ que fui parar à mais vil prisão iraniana – um antigo jardim, a norte de Teerão, no sopé das montanhas Evin, onde há 35 anos um dos primeiros-ministros do Xá Pahlavi criava coelhos.
Fui parar ao principal centro de tortura e morte no Irão, primeiro da monarquia e depois da teocracia, por ter filmado Lanat Abad, a ‘Terra Maldita”, na qual foram despejados, em valas comuns, os corpos de cerca de 10 mil opositores (números da Amnistia Internacional), entre 1988 e 1989. Foi um dos piores crimes da revolução islâmica. Homens, mulheres e crianças enforcados ou fuzilados, no final da guerra Irão-Iraque, em obediência a um édito (‘fatwa’) do ‘ayatollah Khomeini’ depois de os ‘Mujahedin-e Khalq’, aliados de Saddam Hussein, terem lançado a Operação Luz Eterna, para derrubar o regime que, dez anos antes, ajudaram a instaurar.
Tropecei em Lanat Abad quando, em 2007, fazia um documentário sobre os rituais fúnebres dos zoroastras, judeus, cristãos arménios e bahá’ís. Queria filmar o cemitério de Khavaran, espaço simbólico onde estão reunidas todas as minorias religiosas, e onde a estética e arquitectura funerárias contrastam com as normas dos muçulmanos xiitas – a maioria da população. O meu assistente, Rasoul, bem me avisara que não deveria ‘desenterrar os mortos’. Um dia, seis tipos corpulentos bloquearam-me a passagem, confiscaram o disco rígido onde estavam as minhas filmagens e levaram-me para Evin.
Com uma venda nos olhos, fizeram-me atravessar um labirinto de corredores até chegar a uma cela de seis metros de largura por dez de comprimento, na secção 209, reservada aos pri- sioneiros políticos. Fui privada de tudo. Nenhum sinal de vida. Ficamos com a sensação de que estamos num mundo vazio de tudo, e que nem Deus nos ouve. Por vezes, tinha a impressão de que as paredes se estreitavam e me sufocavam cada vez mais. Passei 35 dias em isolamento. Depois, mais um ano retida e sequestrada no Irão, sem poder deixar o país, até ao pagamento de uma fiança.
Não, não tive vergonha de confessar o que os interrogadores queriam ouvir – preenchi 700 páginas de confissão. No Irão, mentir é uma questão de sobrevivência. Desde muito nova que aprendi a mentir. Vejamos: fui uma das apoiantes mais entusiastas da revolução. Tinha nove anos quando o Xá deixou o Irão em Janeiro de 1979. Só a perspectiva de, no cinema, não ter de me levantar para ouvir um hino em honra do imperador pareceu-me justificação suficiente para apoiar a sua queda. Que felicidade, a cena surreal em que ajudei a minha vizinha Mitra a distribuir, de Cadillac, sanduíches e refrigerantes aos ‘jovens revolucionários’. Todos pareciam festejar a partida do ditador e o regresso do teólogo que ele exilara em Paris. O meu pai, antigo militante comunista, era uma excepção: ‘Saberão vocês quem são os mullahs?’ Tinha razão. Meses depois, a vizinha Mitra, sempre elegante, bem penteada e de unhas pintadas, foi obrigada a despedir-se, por se recusar a usar o véu. Refugiou-se no estrangeiro. A revolução obrigou-me a viver várias vidas: uma de mini-saia, em casa e nas noites com os amigos; outra de chador, na escola e na rua. Convenci-me que eu era duas pessoas num só corpo. Em 1995, para soltar as amarras, comprei um visto no mercado negro, no bazar de Teerão, e voei para Paris.
Por força de mentir dia e noite, acabei por me esquecer onde estava a verdade. Na prisão, os interrogadores exigiam que eu mentisse, e eu tinha de alinhar no jogo. Em Evin, o silêncio significa morte. No dia em que me libertaram, em Março de 2007, deram-me um formulário para preencher sobre as condições prisionais e o comportamento dos guardas. Havia quatro respostas: ‘Excelente’, ‘Bom’, ‘Menos bom’, ‘Mau’. O hábito de mentir ajudou-me a responder ‘Bom’ às duas questões.
Não tenciono voltar ao Irão. Sou livre. Se voltasse, seria condenada a quatro anos de cadeia com pena suspensa, como deliberou o juiz. Ainda não terminei a história de Khavaran. E a História ensina-nos que os regimes tirânicos, ainda que convencidos da sua força, não resistem indefinidamente a povos persistentes”.

Mehrnoushe Solouki, documentarista

Margarida Santos Lopes
a partir de uma entrevista, publicada no jornal Público, e de excertos do seu livro “Fatwa de sang – De mon quartier de Téhéran à la prison d’evin” (michel lafon), paris, 2010

fotografia
direitos reservados

3 de junho de 2012

Semana 23
O rio de Myung-hee


“A minha aldeia é Chongju. Para viajar dentro do meu país é preciso ter uma autorização do governo. Sem ela, temos de ser muito espertos para evitar os guardas. Foi o que fiz quando fugi da Coreia do Norte para a China. Fugi pelo rio Tumen. Foi aí que aos 27 anos vi, pela primeira vez, o reflexo da minha dúvida: quem sou?”.
Myung-hee. Um outro nome que protege quem ainda por lá ficou. Treinada para fazer vénias diante do retrato de Kim Il-sung. E para sorrir se queria comer. Ou se não queria que lhe batessem  com um pau.
A morte do “Grande Líder”, em 1994, acabou com as míseras duas rações diárias de arroz. A família subia às montanhas para colher raízes de plantas que misturavam com farinha de milho. Um reboco para tapar o estômago no país apresentado ao mundo como “o paraíso dos trabalhadores”.
Coreia do Norte: uma monarquia-socialista-comunista, onde o filho sucede ao pai. De Kim Il-sung ao “Querido Líder” Kim Jong-il, o testamento do medo dá fôlego à ditadura há mais de 60 anos. O regime sobrevive à conta do policiamento de proximidade. Vizinhos que se controlam e denunciam para não serem denunciados. Sessões de censura pública. Um sistema que anula até pensamentos de dúvida. Os sussurros de que algo vai mal no reino dos Kim – se existem – correm sempre à cautela. Myung-hee ouvia dizer que na China até os cães comiam arroz. Desafiou a corrupta e também já mal-nutrida polícia e fugiu com mais dois amigos, por uma das fronteiras fluviais com a China. No rio Tumen, um dos amigos morreu afogado.
O rio Tumen. Águas de fuga, morte e epifania.
“Tive de continuar para arranjar trabalho na China. Durante um ano só trabalhei e comi. Enganaram-me. Nunca me pagaram. Diziam que iam contar às autoridades chinesas que eu estava ali. Há coisas que quero apagar da memória...Bateram-me muito. Fui vendida, traficada… fui tratada como um animal… Sempre ouvi que Kim Il-sung era o maior líder do mundo e que estávamos a viver num paraíso, mas agora percebo que eram só mentiras. E nem dinheiro tinha para regressar. Fui novamente até ao rio Tumen, para cometer suicídio. Pensei que, morrendo, o meu corpo poderia flutuar até à minha cidade natal.
Foi aí que aos 27 anos vi, pela primeira vez, o reflexo da minha dúvida: quem sou?”.
Myung-hee.
O reflexo do rio devolveu-lhe a identidade. Hoje vive na Coreia do Sul.

Rita Colaço
a partir da reportagem para a Antena 1, em Setembro de 2006
fotografia inédita, 2006

27 de maio de 2012

semana 22
Um lar contra a intolerância

Quando chegar a sua vez, Nora Mülhpforte, 82 anos, em parte vividos num palco, quer passar aqui os seus últimos dias. “Quando já não puder dançar”, sublinha, coquete, a velha profissional de danças de salão que inaugurou em Berlim o primeiro lar europeu para lésbicas e gays com um sentido tango argentino.
Nora tem uma dessas biografias não lineares que dificultam a integração num lar tradicional onde se folheiam álbuns fotográficos durante a semana, e aos domingos e feriados se espera a visita dos netos e afilhados. Num outro tempo, foi casada e teve dois filhos, mas depois da morte do marido, em 1955, Nora descobriu o amor pelas mulheres. “Eu sou uma mulher que ama mulheres”. E agora, que perde a independência, não quer ter de omitir a sua história.
A opção de Nora não é pacífica. Cansada de responder eternamente às mesmas perguntas, e explicar que a sua companheira, Gabi Stiller, 20 anos mais nova, não é sua filha, Nora vê- -se agora também atacada por membros da comunidade gay que receiam as consequências
de “soluções segregacionistas” e a destruição de décadas de trabalho em prol da integração, com a abertura de um “parque temático”.
Sem paciência nem energia para se defender e justificar mais uma vez, a velha dançarina, que optou por viver fora do compasso, apenas tem um desejo: poder viver num lar onde a vida continue como era antes. Viver e deixar viver.

Lina de Lonet Delgado
a partir da reportagem publicada no jornal Expresso/Única, 28 de Dezembro de 2008

Marcel Steger
publicado no Expresso/Única, 28 de Dezembro de 2008