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21 de outubro de 2012

semana 43
Hoje é dia de festa: meu filho é são!


No Centro DREAM de Matola 2, na periferia de Maputo, passaram milhares de mães nos primeiros cinco anos da sua actividade: 98 por cento delas não transmitiu o vírus do VIH aos seus bebés. A cada dia repete-se a luta contra o estigma e contra o preconceito. Para uma qualidade de vida melhor. A oferta da terapia anti-retroviral, com o objectivo de as tratar também depois do parto, a educação sanitária, a amizade, é elemento fundamental para as mulheres. Para poderem ser mães em saúde de bebés sãos.
“Meu filho é são! Hoje fez o teste final porque completou 18 meses e o resultado é negativo!”. Fátima quase não acredita que Manuel, o filho tão desejado, não foi contaminado pelo vírus que há seis anos entrou dentro dela.
“Meu marido não quis vir porque tinha medo do resultado. ‘Va’ tu porque eu não consigo. Tenho medo de desmaiar”, conta-nos esta jovem mulher de 28 anos.
“Fiz o teste HIV depois que o meu marido descobriu ser seropisitivo. Estava muito mal, era um esqueleto: com 44 anos pesava 28 quilos. Nem podia ir trabalhar. Eu não me sentia mal, mas decidi fazer o teste na mesma. Fui ao Centro DREAM de Machava, e logo tive que começar tomar os antiretrovirais. Desde então nunca mais parei”, diz ela enquanto Manuel bebe um sumo.
“E devo dizer que nunca tenho tido problemas. A única coisa bela, a mais bela que me pudesse acontecer, é que fiquei grávida! Até o médico não acreditava. E a barriga começou a crescer e finalmente tinha a prova que não era um sonho. Obviamente a preocupação que o meu filho pudesse nascer seropositivo estava sempre presente. Hoje é o dia mais bonito da minha vida!”, diz-nos chorando de felicidade.
Fátima está consciente de ser uma privilegiada e hoje é uma activista, no seu bairro: um exemplo para as mil mulheres grávidas que neste momento estão a ser seguidas é o elo de ligação entre as mulheres grávidas e o tratamento antiretroviral. Ela leva-as para Matola 2. “Para fazer nascer crianças sãs, como o meu Manuel!”.
Fátima é uma das milhares de mulheres que desde 2003 têm sido assistidas no centro DREAM da Matola 2, no programa de prevenção vertical com a tri-terapia, um programa desenhado e implementado pela Comunidade de Sant’ Egídio em Moçambique em 2002, no âmbito das políticas contra o VIH/SIDA do Governo de Moçambique.
O DREAM privilegia as mulheres grávidas e a dupla mãe-filho porque é a escolha para o futuro de África. No Centro as mulheres aprendem que os bebés de mães seropositivas podem ficar infectados de três maneiras: o vírus pode-se transmitir durante a gravidez, no momento do parto e através da amamentação. Sem nenhuma forma de prevenção, existem 30 por cento de possibilidades que uma mãe infectada possa passar o vírus ao seu bebé.
A oferta da tri-terapia anti-retroviral a partir da vigésima-quinta semana de gravidez até ao exto mês depois do parto para poderem amamentar sem risco e tratá-las também depois do parto, é fundamental. A única maneira para prevenir o aumento exponencial de órfãos.

Paola Rolletta
história inédita, 2009

Isabel Ballena
fotografia inédita, 2009

14 de outubro de 2012

7 de outubro de 2012

semana 41
Quanto vale uma torneira?


Em Qena, no Sul do Egipto, há uma mulher com um tesouro para revelar. Quando se entra em sua casa, aponta para a torneira como quem mostra um quadro de Picasso, porque esta torneira mudou a sua vida. As filhas deixaram de andar quilómetros todos os dias para ir buscar água e passaram a ir à escola.
Catarina Albuquerque, perita independente da ONU para o direito à água, não se esquece desta mulher. A torneira foi financiada pela UNICEF e a família ficou a pagar um ou dois dólares de prestação, durante 24 meses. “Podem não ter dinheiro para comprar muita comida, mas de certeza que vão pagar a torneira”. Continuava sem haver casa de banho, mas pelo menos a torneira já trazia água para beber e cozinhar.
Para além do Egipto, Catarina Albuquerque visitou a Costa Rica, Bangladesh, Eslovénia e Japão, a preparar relatórios para a ONU sobre o acesso à água e ao saneamento. Desde 2008, quando começou o seu mandato, esta jurista tem defendido que a água é um direito humano consagrado, tal como o direito à habitação à alimentação. “É impossível ter acesso a um nível de vida adequado sem água ou saneamento”.
A Assembleia Geral da ONU aprovou em Julho de 2010, por 122 votos a favor e 41 abstenções, uma resolução em que considera o acesso à água e ao saneamento um direito fundamental, mas pela frente há ainda um longo caminho. Todos os anos morrem 1,5 milhões de crianças com menos de cinco anos por doenças relacionadas com a falta de água potável, há 884 milhões de pessoas com difícil acesso a água e 2600 milhões que não têm condições de saneamento, o que significa 39 por cento da população mundial. A cada 20 segundos morre uma criança por falta de saneamento ou água potável.
Catarina Albuquerque espera que a resolução da ONU ajude a não deixar esquecer este direito. Durante a sua missão já enviou dezenas de cartas a pedir para visitar países de várias latitudes, porque a falta de acesso à água não é só um problema de África. Na Eslovénia, por exemplo, viu as comunidades ciganas a caminhar durante duas horas para conseguir água potável. E no relatório que há-de apresentar em Outubro de 2011 falará dos muitos obstáculos que encontrou e de algumas boas práticas, como a torneira de Qena ou as instalações sanitárias que custam apenas um dólar e alguma imaginação.

Isabel Gorjão Santos
história inédita, 2010

Gonçalo Cunha de Sá
fotografia inédita, 2010

30 de setembro de 2012

semana 40
Hameeda num conflito de terra e de água


Hameeda é uma jovem sudanesa que vive refugiada no Leste do Chade.
A sua aldeia, como muitas outras no Darfur, foi atacada repetidamente, em 2006, por homens armados, identificados com as tribos de nómadas. No passado, os choques entre as populações nómadas e os agricultores ocorriam esporadicamente, quando as manadas de uns danificavam as culturas dos outros. Mecanismos ancestrais permitiam às partes chegar a acordos de compensação.
A guerra civil no Darfur, em que a desertificação e a pressão sobre os recursos naturais, a terra e a água, também foram factores de conflito, veio radicalizar a relação entre as comunidades. Os nómadas, em virtude da sua aliança táctica com o regime em Cartum, sentiram-se com um novo alento para atacar os agricultores. Face à violência, muitos agricultores acabaram por procurar protecção nos campos de deslocados, no interior do próprio Sudão. Outros, fugiram para o Chade. Tornaram-se refugiados.
Assim aconteceu com Hameeda e a sua família. Desde criança, fora habituada a tratar dos campos e dos animais domésticos, a ir à lenha e à água. Assim aprendeu a ser mulher e a cuidar da sua vida. Hoje, é mais uma refugiada, vítima de guerra civil, assistida pela comunidade internacional. Não perdeu, todavia, nem a dignidade nem a esperança de regressar à sua terra.

Victor Ângelo
história e foto inéditas, 2010