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16 de setembro de 2012

semana 38
Pablo Fajardo, herói de uma causa


Como muitos habitantes de Lago Agrio nascidos na extrema pobreza, o advogado Pablo Fajardo Mendoza era um desconhecido até ao dia em que aceitou o desafio lançado por um grupo de 30 mil pessoas para os representar num processo contra a gigante petrolífera Chevron. Apesar da pouca experiência, aceitou.
Desde então, o seu caminho assemelha-se ao imaginado na vida de um qualquer herói. Impossível não pensar na heroína do livro de John Le Carré, Tessa Quayle, transformada em mártir no Quénia quando defendeu os interesses de um grupo de pessoas transformadas em cobaias, sem o saberem, por um gigante do sector farmacêutico que aí decidiu testar um medicamento antes de o lançar no mercado.
Enquanto “cidadão comum que se destacou por extraordinários feitos no mundo”, segundo a CNN, a estação norte-americana distinguiu-o “Herói da CNN” em 2007. Fajardo, galardoado com vários outros prémios ligados à defesa do ambiente, tem 37 anos, cresceu a trabalhar nos campos e, só mais tarde, com persistência e mérito completou os estudos secundários e o curso de Direito.
Lago Agrio, pequena cidade colada à parte equatoriana da floresta da Amazónia, repousa sobre um solo rico em petróleo. Aí, a Texaco entretanto comprada pela Chevron perfurou centenas de poços em 23 anos de actividades em que lixo, detritos e alguns tóxicos foram despejados, bem como água misturada com crude. O resultado é um manto de poluição que terá contaminado os habitantes. Os ambientalistas falam num dos locais mais contaminados do planeta ao ponto de já ter sido apelidado de “Tchernobil da Amazónia”.
Um cenário próximo do descrito, em ficção, no livro de Joyce Carol Oates, “The Fall” (“Niagara”), em que o advogado Dirk Burnaby se envolve, até à morte, numa batalha legal contra as companhias químicas da zona do Love Canal. Como Burnaby face aos poderes locais corruptos instalados, Fajardo enfrenta, neste seu primeiro julgamento, os colossos dos escritórios de advogados da Chevron, a terceira maior companhia de petróleo dos Estados Unidos. Mas isso não o intimida.
“Tomei consciência de que não sou menos do que os advogados da Chevron. Na verdade, tenho uma vantagem sobre eles: conheço os problemas como eles realmente são, porque vivo aqui. E percebi que se assumisse a defesa do caso apenas teria de pensar como dizer a verdade”.

Ana Dias Cordeiro
a partir do artigo publicado no jornal Público, 27 de Maio de 2009

Jorge Silva
ilustração inédita, 2010

19 de fevereiro de 2012

semana 8
Era uma vez uma menina...



Corria o ano de 2008 e uma recém-casada apanhou um táxi para o tribunal da sua cidade e exigiu o divórcio de um homem com o qual tinha sido obrigada a casar. O marido violava-a e batia-lhe. Num país como Portugal, que o ano inteiro assistiu à divulgação de histórias de violência doméstica, esta podia ser mais uma, trágica como todas as outras. Mas estamos a falar do Iémen, um país que ostenta um dos mais baixos níveis de igualdade de género e uma elevadíssima taxa de iliteracia feminina, que ronda actualmente os 65 por cento. A heroína da história chama-se Nojood Ali, tem 10 anos, gosta de matemática e de assistir aos desenhos animados do Tom & Jerry e parece ter nascido para mudar a história.
No dia em que decidiu colocar um ponto final no pesadelo em que vivia, cruzou-se com Shada Nasser, uma mulher que já antes tinha ficado na história do Iémen como a primeira advogada e defensora dos direitos humanos a exercer uma carreira de sucesso na capital do Iémen. A advogada decidiu defender o caso de Nojood e representou-a gratuitamente.
Mohammed Ahdal, o pai, um antigo varredor de ruas, tem duas mulheres, 16 filhos e nenhum trabalho. Razão, aos seus olhos, mais do que suficiente para não ter cumprido a promessa à filha de a deixar estudar e de não a obrigar a casar tão jovem. Existia ainda um outro motivo: a “honra”, em nome da qual se cometem crimes que são definidos como meros “actos”. Uma das suas filhas tinha sido violada, outra raptada. E quando o noivo começou a rondar demasiado a casa de dois quartos decidiu que o casamento poderia salvar Nojood de um destino similar ao das irmãs.
Nojood foi eleita como “mulher do ano 2008”, pela revista Glamour e os fundos angariados foram entregues à Girls World Communication Centre, uma organização em Sana’a que oferece cursos de inglês, computadores e planeamento familiar para raparigas pobres. Contudo, a grande vitória da pequena grande mulher foi a de ter voltado à escola. Pretende ser advogada para ajudar meninas como ela. Mas por agora Nojood pode continuar a ver o gato e o rato na televisão, a brincar com a sua irmã mais nova, Haifa, e a ler histórias de meninas com final feliz.

Helena Oliveira
a partir de artigo publicado na revista Cais, em Março de 2009

Khaled Abdullah Ali Al Mahdi
fotografia Reuters